25/01/2008 11:17
Súdito da rainha
Texto e fotos: Renato Bellote
Existem quatro coisas que os ingleses adoram: futebol, a família real, o Big Ben e os roadsters, que fizeram sucesso no mundo todo e se tornaram símbolos eternos de juventude e esportividade. Então, com pontualidade britânica, pegue seu chá com biscoitos e leia a matéria até o final.
A MG que significa Morris Garage foi fundada em 1924 por Cecil Kimber e William Morris. Seus modelos pequenos, com motores de baixa cilindrada e espírito alegre logo tomaram conta não só da Inglaterra como também de toda a Europa e Estados Unidos.
Pois bem. Em uma quinta-feira pra lá de cinzenta, afinal estava quase chovendo, me encontrei com o colecionador Kaiko Botelho, que me recebeu com alegria após uma ligeira confusão de minha parte com os números da rua. Deve ter sido a ansiedade.
Entrei e vi o carro coberto. Realmente é possível entender porque esses esportivos são tão queridos: cabem em qualquer lugar. Mas antes vamos tomar um café, ele me disse. Desse modo peguei a câmera e fui para dentro.
O MG TC é um dos ícones da década de 40. Produzido logo após o término da 2ª Guerra Mundial naquele ano foram feitos apenas 81 carros conquistou a moçada ávida por novidades. O motor é de quatro cilindros com 1.250 cm³ de cilindrada. Para quem gosta de números, saiba que a produção total chegou perto das dez mil unidades.
Voltando à nossa história, o belíssimo exemplar 1946 foi descoberto e já despertou minha atenção. Através da claridade da garagem pude contemplar alguns detalhes e admirar seu excelente estado de conservação. Isso é o que eles chamam de mint condition, enfatizou o Kaiko.
O volante do lado direito tem grande diâmetro. Para entrar basta abrir a porta no sentido contrário. A acomodação é perfeita. O painel é outra riqueza a ser explorada. Bem em frente ao motorista fica um dos instrumentos da marca Jaeger. Do outro lado, o velocímetro, que marca em milhas por hora.
Para dar a partida é só colocar a chave na posição correta e puxar a alavanca Starter pull. Pronto! O propulsor em funcionamento é pura nostalgia. Devido à crescente possibilidade de chuva não foi possível dar uma voltinha. Mas ele é um daqueles carros que despertam essa vontade.
O compartimento do motor só confirma o estado geral do clássico. Limpo. Muito bem conservado. Coisa de apaixonado. Isso é raríssimo, diz o proprietário apontando para um pequeno compartimento de óleo, que tem um local próprio, entre o motor e a parede de fogo.
As rodas raiadas contribuem para enfatizar seu lado mais charmoso. Elas utilizam o sistema de cubo rápido que, por sua vez, foi criado nas competições e teve grande popularidade entre os fabricantes ingleses.
Falando em subjetividade, ao lado deste britânico fica um outro exemplar, mas em miniatura. Esse eu comprei em uma viagem ao Uruguai, revela. O carrinho de brinquedo foi todo restaurado e guarda com ele um pedaço de infância.
Aliás, a garagem toda lembra o mundo dos automóveis. Troféus, pôsteres, medalhas, quadro de ferramentas, além de um pneu faixa branca e muitas peças. Realmente dá pra se sentir bem em um lugar desses. Coisa de apaixonado número dois.
Após dar uma carga na bateria e ligar o mito, o Kaiko acionou um dispositivo extremamente prático. E bem bolado. Dois ventiladores instalados no teto dispersam uma boa parte da fumaça. Genial!
O zeloso colecionador, que é um grande entusiasta da marca britânica, me disse que teve um modelo idêntico a este há muitos anos. O carro da matéria, porém, chegou às suas mãos em 2003. Vidas que se entrelaçam.
Outra característica do TC é que está sempre participando de algum rali. Não muito distante, salientou. Provas de endurance no autódromo de Interlagos também constam de seu vasto currículo em competições.
Um cuidado essencial na conservação é o uso de gasolina aditivada no tanque. Qualquer manutenção necessária eu só faço na R&E, na Lapa, lembra o Kaiko. Desempenho? O velhinho deixa muita gente comendo poeira. Ele chega tranqüilamente aos 120, 130 km/h, enfatiza.
Divertido. Esse é o melhor adjetivo para definir o clássico MG TC. Falei no começo do texto e repito agora. Ficou a promessa de darmos um passeio, em um dia desses de sol e céu azul. E como disse o dono: É só conferir a água, o óleo e botar o pé na estrada.
enviada por Renato Bellote
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